terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Branco ou amarelo, o caminho ainda é o mesmo













Vou me pôr
no lugar do Sol
Pertencer ao horizonte
e não deixar o mar só.
Poeta ou não, poente

Em sua pele azul
um amarelo cintilante
durante todo o dia
e ao dormir em noite
deixarei a Lua de vigia

Sendo branco ou amarelo
o caminho ainda é o mesmo
O mundo clama por desvelo
não quer tornar-se sesmo
sem vida, rarefeito flagelo

Mas antes fogo do que ego

sábado, 27 de novembro de 2010

Flores de um vestido













Com os braços abertos
girava com seu vestido rodado
no meio de um jardim florido
esvaindo-se com os pulsos cortados

Fitava sorridente o céu
como se quisesse colher estrelas
e dormir com elas sobre a lua.
Caído e quieto permanecia o chapéu

Lágrimas, suor e sangue
respingavam sobre as flores
pincelando a sua última arte
berço eterno em vermelho-mangue

O céu escurecia em seus olhos
e sem o chão sentia-se leve
flutuava como uma pena breve
diferente daquela em seus ombros

Ao descansar seminua
no jardim, sua nova cama
pôde sentir o gosto da alma
e camuflar uma vida tão crua

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Infernópole

Tantas motos, carros e escarros pelas ruas. O verde escondendo-se atrás de uma nuvem cinza. O chiclete apaixonado derrete-se agarrado no solo quente. Os pombos em choque, sobre os fios expostos, com os olhos grandes e ardidos; assistem mudos ao espetáculo.

Quando a noite chega, o chão esfria a cabeça... Bocas-de-lobo arrotam uma lavagem indigesta, tragando e baforando restos de bitucas de cigarro e de refrigerantes quentes. Ratos e baratas se encontram para compartilhar fragmentos de sanduíches hot-dog e farelos de coxinha.

As pessoas dormem, e o vento rasteiro muda a página de um jornal; o céu continua lendo. Noutro dia, logo cedo, uma nova notícia desperta ao som da repetida sinfonia. Iniciado por uma buzina infernal, o show se estende ao longo do dia e a vida continua sendo normal, quem diria...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Fidelíssimo










Um vendaval-tentação
passou por mim
Fingi ser poste...

Depois saí mijado
Maldito cão desgovernado!

domingo, 21 de novembro de 2010

Nu escuro

 











Cedo ou tarde
Preto e branco
Serão cinzas

Tragos de uma vida
Alegre ou triste

No peito que segue em riste
O coração ainda é vermelho

No corte que sangra
A mesma dor

No olho que chora
A mesma lágrima

No beijo de agora
O mesmo sabor

No sangue arvora
A face da alma

Num mundo sem luz
O escuro ainda
É igual para todos

sábado, 20 de novembro de 2010

Pelo horizonte

O horizonte não existe
É apenas miragem!
Reflexo de um corpo em repouso
Onde os olhos se perdem no nada

E que vasculham sementes no chão
No meio daquela manada
Contando voltas de um moinho
No alto da colina gramada

Caminham sozinhos
Ouvindo distante
Pegadas de chuva
E um respiro cadente

No fim da jornada
Me encontram pelas costas
Acordando o meu dorso
Com um sopro na nuca

Mas quando não encontram nada
Nesse breve lapso de ausência
Logo retorno pra mim

A alma continua calada
E não sei mais o que é existência...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Uma dúvida, uma fantasia e dois lados

? é um gancho
Que pode rasgar
Bem no meio alguém

Que em duas partes
Então dividido fica
Assim não se esclarece
A dúvida primária
Do que é o Todo

Um ! de baseball
Também machuca
Mas o meu outro
Lado vai ceder
Se o tal de ?
Me pegar

E não dá pra sair
Por aí pulando
Igual Saci-Pererê
Com um taco na mão
Já pensou a guerra ?!

Sou apenas um.
Sem dois lados
Posso até ficar
Com os trapos
E um corte:
Se ele for pequeno
Nada que ... não resolvam

Mas se ele for grande
Até de cima dará pra ver
O resultado final = %

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Não sei se minha vida é escrever













Não sei se minha vida é escrever
Sei que ela me escreve, me desenha,
me pinta em tantas paredes...
No tronco da árvore, no banco da praça,
na pétala clara, no concreto mole daquela calçada

Me esboça surreal na tela em branco,
no quadro negro, na agenda, caderno
e na carteira da escola,
debaixo da escada, no estrado da cama,
em ranhura na estrada,
e na areia da praia, letras e formas de pé

No papel perfumado alado eu meu sinto
quando sou aspirado...
(e flutuo com intento e eu tento tanto)

Esta é a vida! Sua cor preferida?
Vermelho indiano, vermelho carmim
Vermelho mundano, vermelho sem fim
Me tatua quente na pedra fria
poente na pele nua, pra todo o sempre
desenhado na teia, esparramado na lua

Sou tinta óleo pra quem me olha
bem lá no fundo
um livro ilustrado que alguém desfolha
pra guardar de lembrança

Assim esfrio com o vento
e como as pedras da rua
enfim, a vida me perpetua
secando meu sangue no tempo

domingo, 7 de novembro de 2010

Trovart

Trago no meu peito
Razões em cinzas
O coração é meu leito
Verve de brisas
Anunciando um canto
Raio com asas
Trovejando imperfeito

No purgatório

Um vermelho-chama queimando silencioso em minhas veias. Rasga o meu corpo insano que inflama. Atrás do espelho, meus olhos-guaraná anseiam a fêmea vestir-se seminua. Meu corpo se derrete, torcendo pra que ela cometa os maiores pecados ao longo do dia...

E quando ela descansar enfim, meus braços grossos e suados confortarão sua nudez em mim; então tocarei os seus lábios. Seu corpo iluminado de diva irá dissipar-se aos poucos, enquanto a alma ainda viva consumir, os nossos desejos mais loucos...

sábado, 6 de novembro de 2010

Que se lasque










Se o teu coração é de pedra
A pedra que se lasque!

Quem sabe não vire diamante
Mesmo que sejas brutamontes

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O mundo está mudando













O mundo está mudando
A casa vazia
Falta luz

Ecoam o pó
e o silêncio
de um Big-Bang só

Num canto escuro do tempo...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Pla... tônica garçom, por favor

? é universal
O numeral também

E não me faz mal
Quando a saudade vem

Pois de mim pra ti
Há um amor que vai além

Mas nesse esteio musical
Vou indo de Dó pra Si

Porque depois que te vi
Nota-se que tornei-me refém

Tu vieste, eu me escondi
Pra não ser mais ninguém...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Cantada à italiana










"Uma cantada de um português para uma jovem e bela italiana..."


Cantada à italiana
É vero que te quero
Mais do que tudo
E em tua língua espero
Dissolver o meu mundo.

Serei teu molho pardo
Prato predileto de rainha.
Depois o doce bastardo
Querendo que sejas minha.

Ou a azeitona da tua pizza.
Com orégano não me engano.
Já que és a dona, me belisca!
Meu gosto é mais do que profano.

Sabes que moro em Benfica
E que ainda sou lusitano
Mas sigo lembrando a dica
Pois entra ano e sai ano!

E quem não arrisca não petisca...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Um bom semideus













Quero flutuar como nos meus sonhos em noites tranquilas. Sentir-me um pássaro nos dias de Sol sob à chuva da tarde. Mover pedras de lugar e virar conchas à beira-mar só com a força do pensamento. Além das barreiras, poder transpor paredes para espiar de perto. Tornar-me invisível e totalmente despido aos olhos nus.

Desativar as bombas das guerras vãs e travar os gatilhos de todas as armas. Morreriam sem a certeza sobre quem seria capaz de realizar tal proeza. Quero recarregar a bateria das pessoas tristes ao cantar em seus ouvidos e poder secar as lágrimas de qualquer choro animal com apenas um sopro.

Após tapar todas as chaminés das fábricas, restaria esvaziar os pneus de todos os veículos, desligar todas as máquinas e derreter todos os plásticos que moldam a sociedade.Com a febre de massa e o capital de terceira-idade seria radical com graça fazendo um enorme bolo fecal.

Eu saberia de novos inimigos, mas faria novos amigos, porém, aqueles que falam bem de mim pelas costas. E quando eu me deitasse para despertar em luz, sei que meus olhos-veneziana não abririam mais no escuro. Mesmo assim, sendo carne fria ou pó, com ou sem pedra marfim, a Terra não passaria fome, porque eu seria uma pétala e só mais uma poesia que se consome...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A gruta










Após percorrer tanto a pé sobre uma trilha estreita, dentro de uma mata fechada, e de me deparar com tal beleza singular, precisei chegar mais perto para apreciá-la melhor. Passei a admirá-la cada vez mais, e toda visita que lhe fazia, meu fascínio aumentava.

A curiosidade era tanta, que eu passava horas à observá-la (Jamais ousaram adentrá-la). Fui o primeiro a descobri-la e a conhecer cada detalhe dessa bela obra da natureza. Permanece ainda tão misteriosa, com galhos no alto cobrindo a entrada, lembrando muito uma árvore-chorão. Galhos que flutuam suavemente, bailando ao vento. Mas ainda não sei por onde começar.

Continuo aflito e confesso que poder desbravá-la será romper um limite. O que poderá acontecer se algo der errado? E se minha lanterna falhar no escuro? E eu não conseguir achar o caminho de volta? Só de pensar me dá um calafrio na espinha!

Trago na mochila apenas uma fruta, algumas nozes e até um punhado de cubinhos de queijo, para acompanhar com um bom vinho tinto. A grande espera pela conquista! É, mas infelizmente, na garganta desta gruta, só poderei entrar e finalmente brindar, quando eu tiver um cálice para sempre...

domingo, 24 de outubro de 2010

Inércia ao sugo













Sou de vagar
Aos olhos velozes
Que de tão famintos
Só conhecem o vácuo
Entre a visão
E o buraco negro
Do estômago

A esperteza desconhece
A própria natureza
E ignora tanto os sabores
Da vida, da comida
Da partida, da reflexão
Da partilha, da conquista
Da boa música, da lágrima
E depois ou antes dela, um abraço

Correm mais que o sangue
De suas próprias veias

Mal sabem o quanto cresceu
Aquela árvore na calçada
Ou aqueles sobrinhos
-- Sobrinhos? --

E aquelas flores
Tão vivas e perfumadas
Resistindo sobre um chão
Feio e quebradiço,
Mas elas continuam belas
Mesmo que não digam nada
Afinal, ninguém conversa com elas

Isso sim é um feito
De sobre...vivência
Pois não basta apenas
Viver por viver
Então sobre..vivam!!!

Quando puderem
Mudem de frequência
Procurem sintonizar-se
Nas boas estações

Onde a chuva
Não é ácida o suficiente
Para corroer a bondade
Mesmo que contida
Daquela velha criança
Tão ingênua, mas que sonhava
E tinha muita esperança
(e eu quero tanto correr
novamente na chuva...)

Assim como as flores
O mundo quer ver
Tuas reais cores
Chega de céu cinzento!
Não bastassem as tosses
Dos veículos e fábricas
Dia-a-dia, a cada segundo

Enriqueçam sim,
Mas o espírito
Antes de tudo
Penso assim,
Mas confiram aí,
Se houver tempo
Nessa agenda pesada...

Ainda fazem da razão
O único tempero que sacia
Empedrando o coração
Nessa bacia de pura inércia
E nesse banho-maria
Além da matéria indigesta
Extrai-se apenas um molho:

A estupidez humana

sábado, 23 de outubro de 2010

A formiga e o chinelo amarelo










Mesmo que algo
Seja grande
O suficiente

Haverá sempre
Algo maior
Mesmo que você
Não veja de fato

O maior cume da Terra
É o início do espaço...

(Pensava uma garotinha ao ver uma
formiga carregando uma enorme folha,
contornando seu chinelo amarelo)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Frio, um voyeur

Ébrio é o frio
Que se faz presente

É brio congelante
Indolor, indecente

É abril de outono
Mas ele? Sem sono

É febril no amor
No cio sem pudor
E debaixo do cobertor

Mais do que penetrante...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Num gole seco














E a mente vaga
Nesse meio tempo.
Espaço curto do vento
Que sopra, mas não apaga
O que há por dentro.

Olhos-sentinelas
Enxergam distraídos.
Reviram o passado.
Reabrem janelas.

A palavra nem se fala.
Desce de volta correndo
Prum canto quente do peito.

Fere lenta como adaga.
Deixa de ser momento
Tatuando vermelho-chaga.

E ela me cala e se cala.
Logo os olhos despertam.
Como cães molhados chacoalham
Pra depois dissecá-la.

E nada mais houve desde então...

Eupífio, o poeta













Sou poeta de tigela cheia.
Só me alimento de versos
De sentimentos diversos
Quando a Lua me clareia.

Alma condensada no vidro
Da janela da varanda
Sou orvalho odor-lavanda
Quando escorro pelo cedro.

Moinho de águas doces
Transmutadas em puro vinho
Que embriagam o caminho
De vorazes peixes ésoces.

Sou morada das sementes.
No meu peito um jardim.
Sou um anjo sem clarim,
Mas serei pasquim se mentes.

Sou bangalô da selva!
A relva na ribanceira!
O balanço da cadeira!

E nos sinos de madeira
O vento que traz a chuva...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Um recado à escuridão

Quando o sopro da morte me rodeia
Digo a ela que meu sangue
Ainda corre quente pela veia
E que meu destino jamais escurece
Quando minha alma se incendeia

Enquanto houver o ar
Hei de voar com as palavras
E quando eu suspirar vida
Num beijo estalado
Hei de fagulhar e derreter

O escuro das horas...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Velho biruta

"Este vento no pé do ouvido
Me enche o saco!
Me deixa louco!"

(Resmungou um velho Biruta
balançando a cabeça
em tom de reprovação)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Casal binário










Nosso diálogo
É feito sopa
De letrinhas
Quente, morna ou fria

Quando desce bem
Eu + você
Somos um casal 10

Mas quando decimal
Eu + você
Somos apenas 2...

domingo, 22 de agosto de 2010

Delito













Tomei a liberdade pra dizer:
-Estou livre!

Mas ela me embriagou de tal forma
Que acordei com a cabeça estourando
E vomitei tantas palavras a esmo
Que prometi nunca mais bebê-la!

Ressaca moral, saca?

A vida me concedeu um indulto,
Mas ser perdoado temporariamente
É o mesmo que viver carregando
Uma bola de ferro cheia de culpa
Cravada no meio do peito!

E ter a alma sob cárcere privado
Acorrentada, encolhida e trêmula
Num canto frio e escuro do silêncio...

sábado, 21 de agosto de 2010

Surrealizar-se












Banhou-se no limo do verde musgo

Arrepiou-se cheirando rosa-choque
dissolvendo o azul anis do céu da boca

Lambendo o mel dos olhos amendoados
ouviu sopros solfejados à beira-mar

E pra regar um pé de ipê amarelo no peito
aterrou na própria alma em avaria
um pára-raios para um Sol enfurecido do meio-dia

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Folhas secas









O tempo varreu
Folhas secas
Do passado

O chão do peito
Já respira
Aliviado

E o que era
Pra ser inverno
Eterno

Hibernando
Em sono
Profundo

Agora aflora
Imponente
E fecundo

Arvorando
Reluzente
Em primavera...

domingo, 15 de agosto de 2010

Sinestesia, sabor poesia










Olhos e ouvidos
Portais desprotegidos
Quando invadidos
Por versos ousados

De palavras coloridas
Que irradiam na aura
E nas veias abstratas
São promessas de cura

Decretam na alma
A lei do silêncio
O toque de recolher
A reflexão em lágrima

E na boca do âmago
Uma doce sinestesia
De sabores e dissabores
Salivados de poesia...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Estrelismo









Saboreou o sucesso fugaz, tão desejado, e ganhou o mundo. Acumulou riqueza, prestígio e glamour em tapetes vermelhos. Mas brilhou tanto que cegou as retinas dos pobres mortais. E de tanto estrelismo, como estrela (de)cadente, despencou num abismo perdendo a grandeza de um astro que brilha, para virar uma anã branca. E embriagada de tristeza, orbitando vã, perdida em seu próprio espaço, agora sucumbe sem constelação, afogando-se desiludida num mar de consternação...

Lua tímida













Quando era criança, eu corria alegre pela praça olhando as árvores que tentavam cobrir o céu. Vivia procurando encontrar o Sol, teimoso se escondendo atrás das nuvens densas. Nos dias nublados eu ficava triste, achando que ele nem queria me ver. Desconfiava também que discutia com a Lua, pois muitas vezes não andavam juntos.

Eu não entendia porquê ela brilhava menos. Provavelmente era por isso que ela não me aquecia, principalmente à noite. Então pensei num dia: - A Lua deve ser tímida! Pois nem sempre aparece. Então tive uma grande ideia! Quase na hora de ir pra cama, fingi que estava dormindo. Mamãe me carregou até o quarto, cobriu-me, beijou minha testa e apagou a luz, mas minutos depois... Lá estava eu andando nas pontas dos pés (Cobertos com pantufas fofas) e lentamente erguia a janela.

Já sentado no batente, sentindo um frio na barriga (com o pijama gelado) e ignorando uma conversa de grilos, dialoguei empolgado com a Lua, horas a fio. Nesse dia, ela estava sorridente! Mas antes que o Sol despertasse imponente, despedi-me dela, fechei a janela, corri pra cama e fingi dormir novamente...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Uma essência no ar












Andava perfumada
Apesar de sua pele
Lavandar quando amava

Seu hálito e cabelos
Não eram diferentes.
Transpiravam os falos

Arbusto imponente
Nos campos floridos
Despia-se verdejante

Moça bela e prendada
Sabia que suas sementes
Germinariam na alvorada

Partira em fragmentos
Para ser toda aspirada
E curar os meus lamentos

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- Enfermeira, pode acender pra mim?
- Claro senhor!
- Obrigado moça. (semblante sereno)
- Prontinho senhor, deixarei na janela! (sorridente)

(um aroma de incenso no ar)

- Hum... que delícia, cheiro de flor. (deduziu ela)
- É minha querida esposa. (olhos fechados)
- Ah sim... Senhor, agora descanse tá? Volto lá pelas 15:00.

(ela não iria acreditar mesmo)

sábado, 7 de agosto de 2010

Idade x Imparcialidade













Depois de certa idade
recusamos algumas críticas
E usando de malícia e retóricas
resultamos em imparcialidade

Ficamos numa condição
de evitar mais um desgaste
esquivando de algum desastre
que possa afetar o coração

Quando envergamos anos a fio
(Muitas vezes pro lado errado)
tendemos a ficar de lado
achando que somos um sábio

Não pensamos em mudança
pois achamos que tudo fizemos
e no fim, nós esquecemos
dos nossos sonhos de criança

Mas quando os sonhos perdem o roteiro
a grama recobre a trilha da vida
E perdendo o caminho de volta
a alma se desfaz por inteiro...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Meu canto













Meu canto
É um abrigo

De solfejos, palavras
Desejos, anseios
Reflexões e verdades
Bem ditas!

É um paiol
Que explode feito
Bomba-relógio
No peito

Quando a alma,
Pura pólvora
Inflama e evapora
Pela boca, em música

Então eu canto
A particulada magia-neon
Que desbrava ouvidos
E se aloja noutras almas

tic... tic... tic...

O tempo
Volta a falar
Gaguejando

E teimoso
Continua
Contando
Comigo

Refém
De atentados
Do bem

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Obrigado pai













Pai, pára e pensa
Vais descobrir
Que o amor compensa

Se estou aqui de pé
É porque me ensinaste
A caminhar com fé

A cada tropeço
Teu sorriso dizia:
-De novo filho, por ti eu torço!

É assim até hoje
Sempre me dando força
Mesmo sem que me beije

Velas meus passos
Com medo de me perder
Ou desatar nossos laços

Foram pro meu bem, eu sei
Aqueles teus sermões
E puxões de orelha que levei

Já esqueci das broncas
E não guardo rancor no peito
Assim pude desviar das pedras

Mas nunca vou esquecer
Dos teus fortes abraços
Ninho onde busquei me aquecer

Ouça... o silêncio é bobagem
Quero dizer o que sinto
Antes do fim da viagem

Obrigado pai querido!
Teu legado será ter me ensinado
O caminho de amar e de ser amado

Mesmo não tendo tudo aprendido...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Salmo 20 Ouvir

"O silêncio é meu pastor
e muito me falará..."

Velho, maduro e feliz












Pronto, já foi o tempo em que eu me calava
Para não ferir a quem me amava.

Agora preciso dizer o que sinto
Porque minha alma é um grande recinto,
Com um coração costurado, no meio da sala.

Ele anda palpitando com dificuldade
E após idas e vindas, a nostalgia ficou,
Além dos remendos da idade.

No espelho, velho que sou,
Por dentro ainda belo, sem pressa, eu vou
Regar mais uma flor e agradecer pela maturidade,
De quem ainda sonha e revive feliz tudo o que já amou.

Entre dois mundos










Fios desbotados
Folhas secas ao vento
Estiagem do tempo
no tempo chuvoso

Na pele, estradas rachadas,
caminhos longos, profundos

Árvore de cerne macio
agarrada em solo rochoso
vou findando com as frutas
frente aos galhos moribundos

Mas serei da Terra e do céu
Entre dois mundos

Dínamo oculto

"Uma força pedala, o mundo gira e acende..."

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Inspiração bardiúnica













Choviam palavras no lago da alma. A água ficou morna, ondeando multicolor aos som dos pingos. Patos, cobras, peixes e corais banhavam-se numa pintura surreal. Eis que estranhamente, uma sereia emergiu e saiu correndo assustada! Mas por que cobrir os seios?

Já acostumadas, as vitórias-régias brindavam-se como taças, e bêbadas viam o mundo girar. -Deszzze maizuma! (Dizia uma delas). Enquanto as nuvens gargalhavam trovões ao servirem a trupe. Mas noutro dia... a ressaca de um poeta.

Orgasmo

 











Orgasmo
É sarcasmo
Do sexo

Calado
Pulsa
Espasmo

Gargalha
Nos plexos
Do corpo
Pasmado

Transmuta
Oxigênio
Em ar do cosmo

Dissolve
Suspiros
Na carne
Exposta

Um
Doce
Efêmero
Insaciável!

A folha e a lagarta











Venha lagarta!
Beije-me com os teus pés macios
Devore-me aos poucos...

Teu casulo, meu abrigo
Aonde fores voo contigo

Serei as cores das tuas asas
Teu bico nas flores nuas
E nas alvoradas

A confidente dos teus amores

Sozinho no inverno









Com um terno de linho
num inverno de vinho
eu hiberno no ninho

Me alinho em meu leito
e sozinho lamento
o espinho no peito

Deito e me calo
Espreito o estalo
do graveto lançado
na lareira da sala

Meus olhos espelham
a fogueira, as fagulhas
que clareiam o sofá,
o raque, o vaso com flores

Uma silhueta sinuosa
pintada na parede
dança e hipnotiza
Vagarosa se despede

Sem tê-la em meus braços
os olhos vão fechando...
Buscando teu doce beijo
no vilarejo dos meus sonhos

Longe dos ventos













Uma pena só, que flutua. Alma penada escondida no lado escuro da lua, empenada pela vida. Longe dos ventos me abrigo no silêncio, arrastando um pano puído que lambe o asfalto frio. Meus cabelos longos aquecem minha nuca e o corpo inteiro fita a fogueira que dança.

Este é o único abraço caloroso do dia e não sei definir mais o que é água morna. Sou uma lagarta tímida e fraca, sem comida farta. Longe dos ventos durmo quieto no casulo do tempo. Esperando no leito as novas asas se abrirem, pra me alçar deste abismo. Antes que o fim seja decreto...

Pra que te quero Íris?










Há beleza na loucura
e a brancura dos meus olhos
é um quadro sem moldura
com um céu de raios vermelhos

Sem a certeza de uma cura
não me reflito nos espelhos
mas carrego bruma obscura
com todos os meus medos

Pra que te quero Íris?
És redemoinho do mar 
sugando cores do mal
de realidades vis!

Venha Sol do meio-dia
Vou concretar meus ouvidos
Queimar minhas retinas
e só viver de devaneios!

E se tudo fosse grudado?










Às vezes olho a esmo
para entender o vazio
que agora me preenche
e não há mais espaço

A pressão é tamanha
que sinto que o ar
se liquefaz nos olhos
e os ouvidos apitam

Sim, sou um botijão humano
e a cabeça uma panela!

Então fixo o olhar
No vão da pele mosaico
No vão dos dedos
No vão das portas
No vão das janelas
No vão dos muros
No vão dos murmúrios
No vão do ar
Nos vãos...
Não vão responder?

Depois de um tempo
percebo que a visão turva
me poupa nas buscas em vão
pois preciso olhar para dentro

Mas e se tudo fosse grudado?

Nada seria em vão!
Não haveria vão!
Nem o oco do coração!

Mensagem de um poeta que partiu













Deixo o corpo para alimentar a terra. A mão em repouso conforta palavras. Em todo fim há um fim, e sei que muitas árvores, frutas, plantas e flores brotarão pelo jardim. As borboletas virão bailar sobre novas cores e os pássaros cantarão alegres sob o orvalho. Seguirei viagem ao destino dos olhos, para pintar arcos nas íris e soprar encantos nos ouvidos, reverberar nas almas. A minha, já decretada, despertará num novo dia, pois na manhã ensolarada, serei legado de poesia...

Dna Augusta




Dna Augusta é uma madrasta muito acolhedora e com um coração enorme, sempre vigiando suas filhas. Suas garotas são belas e muito divertidas, trabalhadeiras e pontuais, mesmo sob à luz da lua. Algumas já estão na universidade e são muito espertas, um grande orgulho para todos.
  

Sempre desfilam no chão gélido da noite, ao som dos saltos altos, colares, pulseiras e brincos, seus anéis também parecem desfilar. De vez em quando, estrelam as bordas das sarjetas, com o brilho sedutor de um gloss perdido ou com o reflexo de um espelhinho trincado ao meio, rachado pela face híbrida da vida...

Castelo vazio


Um pedaço de tijolo úmido, uma calçada de cimento e um castelo laranja aos poucos se erguia, aos passos dos dias. Um cheiro de terra molhada no ar. Nas fendas do chão quebradiço, mudas de plantas e um mato rasteiro (Escondendo um obscuro calabouço) formavam um belo canteiro, com pedras que havia em seu bolso.

Ao lado, um banco rústico de praça, branco e descascado, servindo de sombra às flores amarelas, algumas desbotadas pelos respingos de uma pintura bem antiga, descoloridas como sua pele enrugada.  Tinha como companhia as árvores com seus galhos feito mãos, que seguravam os pássaros coloridos, que se limpavam, cantavam e pareciam observar aquele homem sisudo e de boca seca e rachada.

- Eles gostam da minha presença.
- Às vezes me pego cantando como eles   (sorrindo)
- Mas voo apenas com os olhos fechados. (suspirando)
- Tomamos café juntos, todos os dias    
- E dou-lhes migalhas de pão.
- Aliás, que horas são? (testa franzida)
- Ah, esqueci a oração! ("chupando bala")

Bem, isso não importava tanto.

- Sabe, o vento vive pedindo passagem (exaltado)
- Resmunga mais que eu!
- E ainda teima em derrubar o meu castelo.
- Hã, mas não vai ser fácil não!
- Pois ele continua firme!
- Apesar de estar vazio. (sorrindo)

Então perguntei - Por que vazio?
- Os hóspedes ainda não chegaram! (preocupado)

A mão trêmula continuava desenhando... Era quase noite. Nenhuma visita. Não havia sorte. Não havia quase vida. Só um aroma de morte.

- E não desisto de construir!            (Limpando a testa)
- Meu castelo ainda vai tocar o céu! (entusiasmado)

De repente uma pausa na fala, um silêncio momentâneo, rompido pelos traços grossos. Um pingo, e uma das janelas fechadas do castelo borrou...

- Vai chover, eu sabia! (Disfarçando com um sorriso forçado)
- Desculpe, agora vou dormir, amanhã eu continuo!

Levantou-se lentamente, deu as costas e se recolheu apressado...
Aquele senhor sabia que no fundo era como aquele castelo laranja, mas se negava a aceitar.

Hecatombe

A Terra foi chacoalhada várias vezes. Como geleia, a atmosfera foi rompida pelos oceanos e mares, que perdiam suas belas cores azul e verde ao invadirem o silêncio do espaço. As nuvens se desfaziam como algodão-doce na boca de uma criança. Novos arco-íris surgiram repentinamente.

Até as montanhas mais altas e arranha-céus foram banhados e engolidos, tsunami global. Quebradas, algumas estalactites saíram das grutas assustadas e irritadas com tanta luz. Igrejas, monumentos, palácios, estátuas, pontes, mansões, favelas, aviões, governantes, ditadores, religiosos, ateus, ricos, pobres, teses e tudo criado pelo homem despencavam à força, bailando soltos no ar, com as águas e com destroços, em picossegundos.

Os mortos que descansavam acordaram despenteados e revisitaram a superfície, sentindo novamente o cheiro das flores e do resto do verde, mesclados aos gases dos escapamentos, das fábricas e das numerosas manadas. Os ossos sentiam-se leves.

Homens-ácaros levados pelas águas sucumbiam sem oxigênio, alguns afogados com os seus egos, espatifados contra os muros ou presos sob escombros. Outros tantos desacordados pelos trancos explodiam em poucos segundos após perfurarem o espaço, com o sangue em ebulição e músculos dobrados de tamanho, os olhos empedrados saltavam exclamados.

Algumas almas foram sugadas por um feixe luminoso branco que desembocava num buraco negro; as demais se misturavam com o resto da sujeira acumulada, e aos poucos foram sendo injetadas no núcleo da Terra, para serem cremadas e esquecidas, até que os vulcões, como um furúnculo doente, passem mal e as expulsem novamente.

Numa quase-seca abrupta, sob o calor de um Sol escaldante, algumas vidas marinhas se bronzeavam, debatendo-se como os peixes, boquiabertos e olhos arregalados, pareciam aterrorizados. Além destes, outros animais revestidos com bolhas-neon misteriosas e grande parte da flora e fauna pareciam ter sido poupados, pois nada sofreram.

A Lua minguante solitária com um sorriso branco impecável observava atônita aquela fúria (Porém nada desmedida) e preferiu não comentar, afinal, ela também vivia se renovando. É uma nova fase... pensou ela. As estrelas piscavam como se aprovassem tal atitude. Algum tempo depois, a sacudida cessou e um sopro resvalou; vendaval em órbita...

Eis que inesperadamente, uma tempestade cristalina, morna, salgada e doce como soro caiu sobre a Terra seminua e então recobriu grande parte dos antigos oceanos, mares e rios, em apenas um dia, sem descanso. Pela manhã, um grande arco-íris se formou no céu. As bolhas-neon estouraram e tudo parecia recomeçar. Os pássaros voltaram a voar e a cantar sob o mesmo holofote amarelo, um novo espetáculo... Mas nenhuma voz humana foi ouvida.

Se a poesia fosse a bola da vez











Se a poesia fosse
A bola da vez,
Certamente seria colorida
E rolaria sobre um campo
De flores,
De árvores,
De colinas,
De pássaros...

Cairia nas veias
De águas doces e salgadas.
Seria lançada por golfinhos,
Nadaria sobre lagos
E se esconderia nas grutas.

Driblaria selvagens
E derrubaria frutas,
De pé em pé,
Lance de alce.

As copas beberiam a chuva,
Então, espelhos
Da luz do Sol,
Da brancura da Lua,
Das nuvens, estrelas 
E de um mar suspenso
Azul celeste.

Uma trave com rede
Para apanhar borboletas
E permitir tocar suas asas.
Vestígios de pólen,
Meia-vida no ar,
Sem penalidades.

Entre tantas naturezas
Sentiria odores e sabores,
As dores da tristeza       (Murcharia)
E a leveza dos amores.  (Encheria)

Fitaria as cores das auras
E das almas, a verdade saberia,
Por meio de ocultos
E sensíveis toques.

Na arquibancada Arco-íris,
Uma cadeira VIP apenas,
De onde trovejaria o grito
De um homem grande e barbudo

Torcendo pela vida...

Amarelo, azul e cinza













A areia escoava dos meus dedos e minhas mãos em forma de ampulheta deixaram os grãos se misturarem com o chão da praia. Assim partiste sem dizer se voltarias um dia.

A sereia levou os seus medos para o fundo do mar azulado, e faceira lavou as lembranças sobre os corais vermelhos, desbotando as cores do passado. Não chove mais em minha praia. Nem sinto mais o cheiro de terra molhada. Por onde andas menina? Caminhei em tantas orlas, buscando vestígios no reflexo das ondas, molhando meus pés... E hoje escrevo com eles bem aqui nesta imensidão, "E.T.A" gigantes!

Se estiveres noutro mundo, talvez possas enxergar. Mas vem logo, antes que a maré suba demais, cobrindo minha esperança. Se eu partir mais cedo, não te preocupes. Fragmentado em várias garrafas, hei de encontrar-te em outras areias. Amarelo, azul e cinza...

Passos largos em vão

Uma estrela que brilha demais pode cegar o homem. Assim como, com a chama da vela, a cera e o pavio se consomem. Passos mágicos na Terra se vão... No espaço a Lua com formas gélidas de pé humano em estado de solidão. Os homens não valorizam a água que bebem. Tratam o planeta com desdém. Ignoram sua real condição. Uma cadência febril de imagem, mente e coração. A arte imita a vida e vice-versa, mas quando a vida estará em Marte? Se tivermos sorte, voltaremos a esta conversa...

Paixão e Ódio

Um auspicioso namoro
nutrido por paixão e ódio
com afável crueldade
sutil oximoro

Entorpeceu-me feito ópio
Das lágrimas o gosto de soro
Após amargas ressacas fiquei sóbrio
Apesar das chagas calei o choro

Mas, ébrio tal qual touro
sob o calor e o frio do solstício
o amor do ócio desperta sagaz
e não mais morro

Vida abreviada









Vá lá com a cunha
Lapide a pedra calada
Com talhos se tornará lápide
na vala coberta de terra

Em baixo-relevo, nome completo
e com números pequenos
o início e o fim datados
ao lado de uma cruz
para serem crucificados

Da lasca, a faísca revela o sereno
que escorre nos galhos
que escoram o céu negro
que chora gotas ácidas
que corroem por dentro
dissolvendo no tempo

Jamais esqueças do D.C.
pois Diante do Céu
até um rei sucumbe
e perante a lei "Sem o véu"
se desnuda a face errante

A vida abreviada
com alfanuméricos

Enquanto o tempo não esquece













Deus é o universo do avesso
Verso denso e travesso
Espesso véu que desconheço

Da face guardada
Do alto que desço
Do fim ao começo
Do velho ao berço
Da alma criada
sou mais que mereço

É a boca que não fala
do silêncio que se cala
mas que ouve o sopro
invadindo o vazio do sereno
da madrugada

E que sente o pulsar
da vida que se aquece
enquanto o tempo não esquece

Vou comprar cigarro e não volto









Costurei meus lábios
Agora com retidão
Não digo mais
Nem palavra
Nem palavrinha
Nem palavrão

Às vezes é melhor mesmo ficar calado
Quando fingem estar do seu lado
Remoendo o passado e amando em minguado

Não cobrarei mais o que já foi cobrado
Fique com o troco!

Vou comprar cigarro
Eu e meu fumo
Partiremos sem rumo,
Num belo trem!

Numa só jornada
Sem volta, sem revolta
Sentir o cheiro da mata
Fitar novas flores
Tragar novos sabores...

Não sou o que eu era ontem
Não sou melhor que ninguém
Mas hoje sou maior, pro que me convém.

Cadafalso pelóleo










Quem irá
Ser contra
O Iraque
Agora? Al Gore?

Será que
A ira que
Disputa terras
Tem dois lados?

Extrai o
Preto do
Tutano do
Osso
Fosse
Isto
Posto

Se não
Fosse
Gente de
Posse de
Foice
Transparente

Um passo
Cada falso
Num cadafalso,
Mas só
d
e
s
p
e
n
c
a

O bigode
Preto
Oleoso

Saldam uns cem
Morto(s)!

Mas e o
Bucho do
Bush?

Intacto!
Como seu
Cabelo...

Eu x Família

Do peito veio o canto mal ouvido
Por quem se move por sobrevivência
E procura demonstrar sapiência
Mas que se escora no passado

Não ligo mais em tomada sem energia
Nem fico mais em estado de choque
Mostro o que vem da alma em avaria
Mesmo que este não seja o enfoque

Minha entonação se tornou mais forte
E as palavras mais que cruzadas
Perfuraram as bocas caladas
Deixando um profundo corte

Cansei de me fazer de bonzinho
Não me reconhecem como se deveria
E nem saio mais de fininho
Porque meu coração não permitiria

Mesmo assim deixo que me neguem
Faço de conta que nem ouço
Pago a conta do almoço
Mas não deixo que me violem...

No mesmo rumo













Se não olhamos pro mesmo horizonte
E remamos de frente pro outro,
O barco não vai adiante
E o mar fica revolto.

Se não olhamos no fundo dos olhos
Não sabemos se é relevante
Guardar tantos segredos,
Mesmo sendo amantes.

Como rios nos encontramos
E não há porque desaguar
Num mangue de incertezas.
Há tanto mar a desbravar.

As diferenças pesam demais.
Vamos despejá-las pra fora
Antes que o barco afunde,
Com todos os nossos sonhos.

Vamos ancorar o coração
Nas profundezas da alma,
Sentir o sopro na vela
Que alimenta a nossa chama.

A única bússola que nos guia...

Ansiedade x Sobriedade










Como administrar o meu tempo
Se ele acelera com o meu pensamento,
Que anda muito teimoso,
Querendo prever o futuro?

Quando não, procura ter cautela
Com o que eventualmente ocorrerá,
Antecipando a colheita
Pra já ceifar o que ressecou.

Pra onde foram os frutos?

Meu lobo frontal desmiolou de vez.
Está preparado pra uma guerra,
Sabe lá quando, como e se ela virá!

Noutro dia a vida sorri como criança,
Me refrescando mais uma vez numa boa bricandeira!
Hã, armas bélicas contra armas d'água...

Onde está aquele calmante
Pra me embriagar de sono
E me forçar a fazer as coisas pela metade?
Prostração, por prostração...

Assim diminuo o ritmo
Dessa ansiedade contra o tempo,
De uma sobriedade diluída pelo vento.

Altos e baixos










Entre altos e baixos
Vou oscilando quieto,
Viagiado por day traders da vida.

O mercado não está para peixe
E não estou à venda.
Tire de mim essa venda,
Me solte logo, me deixe!

Quero enxergar novamente...

Páre de me especular tanto.
Hoje valho mais que o dólar
E deixei de lado meu pranto,
Não tenho motivo pra chorar!

Estou em alta agora,
Não jogue a lata fora!
Ainda estou lambendo a tampa...

Opa, a bolsa perdeu o zíper!
O que faço agora? Start ou stop?
Ah não, de novo? Crash geral!

Cai novamente...

Bendita saudade













Sentí-la como éter na pele
É ter um segundo tão breve
Do teu frescor tão ardente

Evaporando de mim
Teu cheiro jaz enfim
E teu calor se faz ausente

Sem ti, lá no fundo, me fere.
Iracundo mais nada me serve
E outro sabor me ressente

Perdendo o caminho de volta
Me abrigo numa colina
Mas continuo errante

Sem ti, nem sentido faz
Nem tenho tido paz
Em minha alma carente

E sozinho anda agitado
Esse meu coração flagelado.
Bendita saudade cortante!

Mistura x Solução













Xeroque os meus medos
E "scanneie" minha alma

Verás o preto-e-branco
Invadindo outras cores

Arco-íris na tempestade
Suavizando relâmpagos

A alma imersa no medo
O medo contido na alma

De mim sei que sou Sheik
Mas viu que pareço Milk Shake?

Sou borra enigmática
Numa xícara de café

Buscando uma solução
Dentro desta mistura

Sou um cara de fé!